No início dos anos 80, o INXS era uma força da natureza forjada no calor dos pubs australianos. A banda carregava aquela energia visceral do rock de estrada, mas Michael Hutchence e os irmãos Farriss sabiam que podiam ir além. Eles queriam o mundo, queriam o groove e queriam tirar o público da zona de conforto. Foi em 1983, durante uma turnê pelos Estados Unidos, que o destino colocou o mestre Nile Rodgers no caminho desses jovens de Sydney.
Rodgers, o gênio por trás do Chic e da guinada triunfal de David Bowie em Let’s Dance, viu no palco algo que o hipnotizou: a batida certeira do baterista Jon Farriss e a presença magnética de Hutchence. Ali, nos bastidores de um show em Toronto, nasceu uma parceria que mudaria a história do rock-funk global.
A alquimia sonora nos estúdios de Nova Iorque
A banda desembarcou no lendário estúdio Power Station, em Nova Iorque, carregando uma demo chamada “Brand New Day”. O que era uma canção pop otimista e comum passou por um processo de metamorfose profunda. Sob a batuta de Rodgers, o INXS aprendeu a arte do “espaço” sonoro. Menos era mais. As guitarras se tornaram rítmicas e percussivas, enquanto os sintetizadores traziam um ar exótico e moderno que definiria aquela década.
A gravação foi um momento de pura intensidade. Conta a lenda que Nile Rodgers, percebendo o nervosismo da banda, pegou sua famosa guitarra e entrou na sala para tocar junto com eles, unificando o som em um único “take” perfeito. Como no “take” seguinte, sem a participação de Nile Rodgers, o baterista Jon Farriss furou a pele do bumbo de tanto entusiasmo, não houve tempo hábil para reposição, e a versão lançada no álbum, a que ouvimos até hoje, é a que conta com a guitarra de Rodgers.
O “pecado” que nasceu no parquinho
Embora o título remeta a conceitos bíblicos, a verdadeira inspiração de Michael Hutchence veio de uma observação cotidiana: crianças brincando em um parquinho no Harlem. Ele notou que, entre os pequenos, não havia cor, ódio ou julgamento. O “pecado original”, na visão da letra, era o preconceito aprendido e herdado dos adultos, que corrompe a inocência natural.
Nile Rodgers deu o toque final de coragem. Ele sugeriu mudar o refrão para que falasse explicitamente sobre um “garoto branco” e uma “garota negra”. Essa pequena alteração transformou a música em um manifesto corajoso sobre amor interracial e quebra de barreiras sociais. Em plena era Reagan, a canção foi um grito de liberdade que enfrentou censura em várias rádios conservadoras dos Estados Unidos, mas que foi abraçada com paixão pelo resto do planeta.
Soul, teclados e o neon de Tóquio
A produção ganhou ainda mais brilho com a participação surpresa de Daryl Hall (da dupla Hall & Oates). Sua voz de soul trouxe um polimento irresistível ao refrão, criando um contraste perfeito com o estilo mais ríspido de Hutchence. Para completar a aura de sofisticação, o videoclipe foi filmado no Japão, trocando os palcos tradicionais por motocicletas e cenários industriais repletos de neon, consolidando o INXS como ícones de estilo e modernidade.
“Original Sin” não foi apenas o primeiro número um da banda na Austrália; foi a semente que floresceria anos depois no álbum Kick. É uma música que nos convida a dançar enquanto refletimos, provando que a batida perfeita e a mensagem profunda podem, sim, caminhar de mãos dadas.



